Em tempos de “pacificação no Rio de Janeiro”, um filme que já começa a mostrar seus erros e furos de direção, projeto e roteiro mas que, apesar da polêmica, só acrescentou ao já longo debate sobre o uso, o tráfico e a ainda intensa atividade dos traficantes de drogas no país, não posso deixar de lembrar o episódio ocorrido há alguns dias no Rio (claro, onde mais) e no mundo com o objetivo de descriminalizar e legalizar o uso do aparentemente simpático canabinóide.
Em diversas cidades do mundo ocidental foi realizado um ato organizado internacionalmente e denominado “A Marcha da Maconha”. O evento, promovido por ONGs e pela iniciativa privada (por celular, de dentro dos presídios de segurança máxima?), faz parte do movimento internacional “Global Marijuana March” e no Brasil ocorreu outras cidades em edições anteriores. Neste ano, porém, a caminhada em via pública, provavelmente anunciada com boa antecedência pelo odor característico, nem mesmo necessitando muito barulho ou palavras de ordem, ao que parece ocorreu apenas na cidade maravilhosa. Em algumas cidades, como fiquei sabendo, a passeata foi substituída por um ciclo de debates sobre o assunto; já no Rio de Janeiro – RJ foi executada a marcha, propriamente dita, com todos os detalhes pitorescos e a pitoresca verve que fazem o talento dos cariocas. O desfecho, porém, desta vez, foi com a aplicação dos procedimentos legais para o caso.
O assunto não é nenhuma novidade e os argumentos apresentados também não fugiram do já conhecido repertório sobre a matéria. Os manifestantes do Rio mencionaram o impacto sobre o tráfico de drogas, com colocações desde mercadológicas, onde foi citado o risco da compra de um baseado do traficante, na boca de fumo, que encontra-se ao lado de outras drogas (só faltou falar em vitrine), o que seria uma propaganda do mercador de “cheap thrills” (que a Janis me perdoe) no sentido de incentivar a venda de outras coisas ao “desprotegido” consumidor/cliente até considerações de cunho social e segregacionista, lembrando que os incautos compradores de estados alterados de percepção, atualmente, ao freqüentarem as bocas-de-fumo em passeios bucólicos pelos belos morros cariocas, misturam-se com toda sorte de gente e até bandidos (mesmo?). Sem falar, claro, na colocação mais antiga de todas, qual seja, a de que o tráfico e a violência que dele advém só sobrevive por causa da manutenção da ilicitude do uso não médico de psicoativos. Interessante não se citar o caráter preconceituoso dos pontos de vista citados.
Ora, sras e srs, se pré-julgar ou pré-conceituar é um erro, não podemos deixar de considerar, também, o erro da simplificação. A questão parece ser bem mais complexa do que possa fazer crer o ponto de vista de nossos valentes e briosos manifestantes. É fato que drogas ilícitas por esta banda ocidental do mundo podem não o ser por outras bandas e as drogas lícitas por aqui, como álcool (principalmente) e tabaco, podem não ter a cobertura legal para seu uso em outros locais. É fato, também, que a drogadição (por substâncias lícitas ou não), a longo prazo, traz prejuízos consideráveis econômicos e afetivos, tanto pessoais quanto coletivos. Por outro lado, sabemos que a maconha não é algo que venha a causar dependência física, apesar de sabermos também que contenha um maior poder cancerígeno do que o cigarro industrial hoje livremente vendido e (ainda) se estude o conceito de “dependência psíquica” ou “afetiva” da droga, com alguns casos reportados sobre a “síndrome da despersonalização” que acometeria usuários crônicos a longo prazo.
Também não podemos deixar de considerar o ambiente que existe hoje do lado de cá da “legalidade”. Nos anos 80 e início dos 90, nos EUA, houve uma forte discriminação do tabagista pelo país, praticamente estigmatizando-o. As campanhas, patrocinadas pelo governo e por grandes empresas objetivando diminuir os prejuízos advindos das doenças provocadas pelo cigarro, foram focadas nos jovens, basicamente. Com efeito, em um espaço de5 a10 anos, o índice de fumantes no Grande Irmão Branco caiu drasticamente naquele país, porém observou-se um fato certamente cruel, patrocinado pela indústria do marketing, qual seja, o aumento do número de fumantes entre crianças e adolescentes. Tal movimento estatístico eclodiu através de massivas campanhas publicitárias tornando o ato de fumar algo jovial. Com efeito, via-se por todo o país (e até no Brasil) a conhecida figura do camelo da marca de cigarros Camel® em roupagem jovem, vestido de surfista, skatista e em outras formas totalmente amistosas. A atração foi, literalmente, fatal e, no final dos anos 90, já havia aumentado novamente o número de fumantes adultos. Hoje, ao que parece, a tática tem sido uma facilitação estatal para com os processos milionários contra a indústria do fumo pelas mortes causadas pelo produto.
Esta pequena história pode, perfeitamente, ilustrar um suposto ambiente de competição de mercado com a legalização da maconha em nosso meio. Nossa indústria publicitária é altamente desenvolvida e nossos profissionais da área são de competência internacionalmente reconhecida, sem falar nos Duda Mendonça da vida. Hoje, com maconha ilegal, já temos um início precoce no uso do álcool levando a um alto índice de dependência física e desagregação social e pessoal, bem como um início no tabagismo que gira em torno dos 16-18 anos,em média. Umanova droga, agora lícita, entraria direto em um ambiente de competição por consumidores em potencial e a guerra do marketing desenvolver-se-ia na mesma proporção. Teremos, então, que nos preparar para passar a discutir um novo problema, o do potencial início ainda mais precoce do uso de álcool e tabaco por parte desses potenciais “consumidores”.
E é claro que, apesar de não haver mais o tráfico da maconha, o crime organizado não perderia sua força (nem mesmo diminuiria). Afinal, o bandido existe desde o bicheiro, sempre simpatizado pela população e tolerado pela lei, evoluindo após para o traficante que no início “protegia” os pobres e posteriormente os pressionava e matava. Até que criou-se o monstro, porém sem ninguém reclamando a maternidade e/ou paternidade. Certamente o crime passará a ter nova forma de organização. Legalizar ou não a maconha no Brasil é um ato que, apesar da simpática manifestação ocorrida, não pode ser encarado de forma alguma com contornos simplistas e generalistas. O baseado pode, por si só, ser apenas um detalhe, uma ponta do iceberg da tentativa de renascimento do tabaco e fortalecimento do álcool. Um abraço.