DE CIMA PARA BAIXO OU DE BAIXO PARA CIMA, TANTO FAZ
Publicado por Arnaldo D. Q. em 9 janeiro, 2008
Há décadas, J. P. Sartre, em uma palestra para feministas numa universidade francesa, foi questionado por uma das participantes sobre sua opinião a respeito da situação da mulher na sociedade daquela época. Acreditem, há cerca de meros 45-50 anos, as mulheres tinham dificuldades sociais totalmente diferentes das que têm hoje. Pois bem, sras e srs, nosso admirado existencialista respondeu, em uma frase antológica, que “somos, todos, vítimas e cúmplices de nossa situação”.
Ora, uma personalidade como Sartre, com seu histórico e, principalmente, suas idéias, proferir uma resposta como aquela evidentemente soou como grande ofensa. Não faltaram vaias e protestos, continuados pela inevitável repercussão na mídia da época, eternamente dividida entre dois lados (o que ainda hoje não mudou, sras e srs). Se ele tivesse e-mail, então… Lembro dessa passagem, já histórica, para repassar algumas situações que têm ocorrido nos últimos tempos e que, não sei por qual razão, remeteu-me a esta passagem a que tive acesso ainda na minha adolescência. Claro que são apenas algumas passagens.
Mas como o ser humano é hoje basicamente o mesmo de 50, 500 ou 5000 anos atrás, variando apenas a trama tecnológica que cerca as relações, podemos perfeitamente traçar o paralelo moral que a citação significou à época para os dias de hoje. Principalmente hoje, quando vivemos um contexto deveras interessante onde as personagens principais dos últimos grandes escândalos nacionais estão devidamente enquadradas pela nossa justiça. Se, por um lado, é uma novidade em nossas rotinas, por outro podemos constatar “in loco” o desfile orgulhoso de toda a complexidade de nosso sistema de justiça, cheio de atenuantes e possibilidades sem fim para os acusados, o que faz com que um processo perca-se durante os anos pelas salas de um Superior Tribunal qualquer de nosso país. Não nos surpreendamos, portanto, se dia desses, em uma sala qualquer de um andar qualquer de um Superior Tribunal qualquer, um despreocupado mensaleiro encontre um sanguessuga e troquem uma idéia sob o olhar atento de um Renan eternamente indiciado, todos com provas, testemunhas, etc, totalmente imaginários, peças de ficção ou, num termo preferido, factóides.
Nesta fase, claro, ninguém terá tomado decisão nenhuma (aliás a indecisão e falta de atitude de governo é sinal de intelectualidade na América do Sul), discutindo ainda sobre o sentido em que se move a corrupção, se do governo para a população ou se iniciaria pelo povo, num processo eterno de retroalimetação. Essa é uma dúvida que temos mesmo discutido entre nós e que humildemente gostaria de ilustrar com algumas pérolas reais de nosso país. Ei-las:
1. Início de 2003, governo novo, de um novo grupo, com idéias e propostas diferenciadas que foram, por mérito próprio, alçadas ao poder. Em seis meses crise de proporções nunca antes vistas dentro do INCA (Instituto Nacional do Câncer, no RJ), diga-se, a voz do Ministério da Saúde para assuntos de câncer. Parado administrativamente, passou a enfrentar problemas até mesmo com a quimioterapia. Continuou aberto apenas por iniciativa dos médicos e demais funcionários até que, em assembléia, decidiram por demissão voluntária. Não agüentavam mais a direção da instituição. A direção? Uma vetusta senhora, de inegável intelectualidade, alçada ao cargo por ser esposa de um “companhêro” velho, daqueles da fundação do ParTido, mas que de câncer (e de INCA, então…) não tinha uma só apropriada idéia.
2. A ONU divulga pesquisa em que mostra o aumento estatístico do trabalho infantil no Brasil. Nosso ministro do trabalho à época, Patrus Ananias, afirma que não é bem assim. Ocorre, segundo ele, que muitas das crianças consideradas, na verdade, atuam ajudando a família em propriedades agrícolas familiares. Bem, de qualquer modo não vão à escola (provavelmente as famílias ganhem Bolsa Família) e as pequenas mutilações de falanges provavelmente não passem de falta de preparo profissional…
3. O ministro da justiça, não é segredo, considera que a imprensa não deve publicar de tudo indiscriminadamente, cobrando desses órgãos maior responsabilidade (claro que sob o ponto de vista dele). Faltou uma conversa com seu antecessor, de tão relevantes serviços em prol de nosso presidente, que proferiu frase talvez histórica: “A imprensa é para ser livre, não justa“.
4. Nosso presidente quer criar uma TV estatal. Para propagar mais livremente seus feitos ou para criar rival às nossas redes livres privadas? De qualquer forma, temos bons produtos nesta área, como TVE, TV Senado, TV Câmara, que prestam bons serviços. Hugo Chaves não quer TVs privadas por lá…
5. O secretário de obras (acho) do RJ contratou, emergencialmente, empreiteiras para as obras do Pan. As instalações, em todos os níveis, não estariam prontas à época do evento. Ao que parece os trabalhos progrediam muito lentamente, apesar de a obra ter custado cerca de três vezes mais do que o orçado (e razoável).
6. Roling Stones no Rio. O gerente inglês que controla a construção do palco aparece em um documentário da National Geografic preocupado com o fato de a obra andar devagar apesar de estar empregando o dobro de pessoal do que usaria para a mesma obra. Não entende o porquê da lentidão.
7. Plantão de atendimento na periferia de uma grande cidade brasileira. Uma mulher, meia idade, consulta por um leve resfriado num sábado, final de tarde. O médico, ao explicar-lhe o quadro, diz que com o tratamento deverá ainda sentir-se mal por uns dois dias, provavelmente melhorando a partir da segunda-feira. A pequena filha da mulher, cerca de 10 anos, diz que, se fosse uns dois dias antes ela não precisaria ir trabalhar. A paciente, então, profere a pérola: Soubesse e não iria trabalhar. Já ia emendar direto com o fim-de-semana!!!!”
8. Um cruzamento numa grande cidade. Um carro para no sinal vermelho, apesar de não haver outros automóveis na via perpendicular. O motorista de trás, ensandecido, reclama do motorista que parou no vermelho, sinalizando que não vinha ninguém e que poderia “furar” o sinal…
9. Congresso Nacional. Um deputado, professor, sobrinho do Pato Donald, pego com a mão em 20 mil reais de origem “não contabilizada”, defende-se com o argumento de que estava sendo “massacrado” por uma “quantia tão pequena”… Bem, roubar um pouquinho só pode, né?
10. Diz-se que o brasileiro é um povo solidário. Porém, fora das grandes campanhas nacionais e pela TV, os níveis de contribuição espontânea são ridiculamente baixos. A solidariedade é um traço de caráter, independente de ter ou não platéia.
11. A nova ministra do turismo, sra de fino trato, grande intelectualidade, da nata da sociedade do centro rico de nosso país, ao que consta, nunca teve atuação, formação ou informação na área. Porém, competente sexóloga, dá úteis e oportunos conselhos para quem esperava por horas, horas e horas em um aeroporto (o famoso “relaxa e goza”)…
Bem, sras e srs, considerando que pelo menos um ou dois por cento da população poderá alçar postos de comando um dia ou outro e considerando que as pessoas são basicamente as mesmas em seus sentimentos e motivações, hoje como há 50, 500 ou 5000 anos atrás (ódio, amor, cobiça, indiferença, p. ex., são os mesmos), será que ainda podemos esperar por algo? Um abraço.
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Esta entrada foi publicada em 9 janeiro, 2008 às 4:47 am e é arquivado em opinião.
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Anônimo disse
mal muito mal